Por Kiyoshi Harada, presidente do IBEDAFT

Em uma live no Facebook, no dia 16 último, o Senhor presidente criticou pela enésima vez a mídia brasileira afirmando que a imprensa “tem medo da verdade”. “A nossa imprensa tem medo da verdade. Deturpam o tempo todo. Quando não conseguem deturpar mentem descaradamente”.

Que a nossa mídia não é competente e confiável todos nós o sabemos. Frequentemente ela traz notícias incompletas, falhas, lacunosas e, às vezes, não verdadeiras como, por exemplo, a fuga do Carlos Ghosn que estaria em regime de prisão domiciliar, sob vigilância de uma empresa particular contratada pela Nissan, e que ante a ameaça do senhor Carlos Ghosn de denunciar a violação de direitos humanos a Nissan teria suspendido o monitoramento que permitiu a sua fuga do Japão. Com um pequenino esforço mental é possível inferir a incoerência da notícia veiculada.

O preso, qualquer que seja o seu regime prisional, e em qualquer país do mundo não pode reclamar contra a vigilância que é exercida. Cidadão preso significa que está sob a custódia do Estado. No Brasil o monitoramente é feito por meio de uma tornozeleira eletrônica. Na verdade, o senhor Carlos Ghosn, como esclarece o comunicado oficial da Ministra da Justiça do Japão, Senhora MORI Masako, estava em regime de liberdade sob fiança com o compromisso de não sair do país, o que é bem diferente da versão dada pela mídia brasileira. E naquele país, compromisso assumido é algo muito sério!

Portanto, o jornalismo no Brasil padece certamente de defeitos sérios. Por isso, o exercício da profissão de jornalista deixou de ser privativo dos diplomados nesse ramo científico.

Entretanto, o que não é compreensível, nem aceitável é a violenta reação do Senhor presidente em relação à jornalista Thaís Oyama, uma brasileira nata, que escreveu o livro “Tormenta: O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”. O título sugere tratar-se de um livro de cunho jornalístico.

Ainda que a jornalista tivesse se excedido no exercício da liberdade de expressão não se justifica, com todas as vênias, a agressão verbal perpetrada pelo Senhor presidente da República que declarou em alto e bom som: “E esse livro dessa japonesa, que eu nem sei o que faz no Brasil, que faz agora contra o Brasil”. Sabe muito bem o Senhor presidente que ela está no Brasil porque aqui ela nasceu. E eventual crítica ao governante não pode ser considerada agir contra o Brasil.

Não conheço o livro, nem a sua autora, mas se contiver algo que possa ser qualificado como crime contra a honra o remédio seria o acionamento de mecanismos legais tendentes à perseguição criminal ou à reparação do dano moral, nunca partir para uma agressão verbal destemperada, desproporcional e com veementes indícios de idéias preconceituosas que extravasa a fronteira das partes antagônicas.

A irreverência do Senhor presidente, que mal consegue disfarçar o seu espírito beligerante e preconceituoso, ofende toda a comunidade nipo-brasileira que vem atuando com zelo e competência em todos os setores da atividade humana, dando a sua contribuição para o desenvolvimento e fortalecimento da inteligência nacional. E fere, também, as regras da diplomacia ao dar um sentido pejorativo à origem étnica da jornalista ligada a um país que mantém relações de amizade com o Brasil.

Semelhante ofensa foi perpetrada por um presidente norte-americano contra o Senador Daniel Inouye, um herói da Segunda Guerra que foi chamado de o “japonês” durante uma conversa informal do Senhor presidente que não atentou para o fato de o microfone estar ligado. O Senador Inouye foi à tribuna do Senado e condenou com veemência a fala do presidente americano. Posteriormente houve pedido de desculpas por parte do Senhor presidente da República.

A única diferença é que lá a ofensa resultou de um descuido; aqui a ofensa foi perpetrada conscientemente e dirigido ao público em geral. Se foi uma imitação do exemplo norte-americano ela ficou pela metade!

Share on Social Media

Post 0Share Count on X
0Share Count on X
Share 0Share Count on Facebook
0Share Count on Facebook
Share 0Share Count on Linkedin
0Share Count on Linkedin
E-mail 0Share Count on Email
0Share Count on Email
Telegram 0Share Count on Telegram
0Share Count on Telegram
Post 0Share Count on Threads
0Share Count on Threads
Post 0Share Count on Bluesky
0Share Count on Bluesky