Mario Frota - apDC - Direito de Consumo Coimbra

 

O assédio, em matéria de arrendamento urbano perpetrado pelo locador ou por alguém a seu mando, é um ilícito com consequências tanto nos planos contra-ordenacional, como criminal e civil.

 

O senhorio quer a casa que me arrendou há tempos e pretende que saíamos o mais depressa possível, porque vendendo-a livre de pessoas terá maiores vantagens. E anda a fazer-nos a vida negra com gente que nos vai bater à porta a meio da noite a perguntar se ali ugam quartos e com uma série de tropelias que nos deixam fora de nós.

Além disso, chovem as ameaças por telefone, a desoras também, recorrendo ainda a outros estratagemas pouco próprios, como ameaças de corte de água e luz, etc.

Já nos queixamos a polícia, que diz nada a ter com isso porque é coisa que compete aos tribunais.

O que podemos fazer então?”

 

Perante os fatos a terem-se como reais, cumpre oferecer resposta:

1. Estamos patentemente perante um fenômeno de assédio do locador face ao locatário e seus dependentes.

2. Entende-se por assédio “qualquer comportamento ilegitimo do[locador], de quem o represente ou de terceiro interessado na aquisição ou comercialização do locado, que, com o objectivo de provocar a desocupação do mesmo, perturbe, constranja ou afecte a dignidade do locatário, sublocatário ou das pessoas que com estes residam legitimamente no locado, os sujeite a um ambiente intimidativo, hostil, degradante, perigoso, humilhante, desestabilizador ou ofensivo, ou impeça ou prejudique gravemente o acesso e a fruição do locado.”

3. Ao locatário se confere o direito, sem prejuizo da responsabilidade civil, criminal ou contra-ordenacional decorrente de acções e omissões em que se consubstancie o assédio, de intimar o locador a tomar providências ao seu alcance no sentido de:

  • Cessar a produção de ruído fora dos limites legalmente estabelecidos ou de outros actos, praticados por si ou por interposta pessoa, susceptíveis de causar prejuízo para a sua saúde e a das pessoas que com ele residam legitimamente no locado:

  • Corrigir deficiências do locado ou das partes comuns do respectivo edifício que constituam risco grave para a saúde e segurança de pessoas e bens:

  • Corrigir outras situações que impeçam a fruição do locado, o acesso ao mesmo ou a serviços essenciais como as ligações às redes de água, eletricidade, gás ou esgotos.

4. A intimação far-se-á nos termos legais, devendo conter a exposição dos factos em que se fundamenta.

5. Em 30 dias contados da recepção da intimação, o locador deve, mediante comunicação ao locatário, mostrar que adoptou as medidas necessárias para corrigir a situação ou apresentar as razões que justifiquem a não adopção do comportamento pretendido.

6. Omitindo o locador a resposta, ou mantendo-se injustificadamente a situação por corrigir, sem prejuizo da responsabilidade civil ou criminal de tais factos resultantes e da possibilidade de recurso aos demais meios judiciais, ou extrajudiciais ao seu dispor, pode o locatário:

  • Requerer uma injunção destinada a corrigir a situação espelhada na intimação,e

  • Exigir do locador o pagamento de uma sanção pecuniária no valor de 20€ por dia a partir do final do lapso de 30 dias, até que o intimado mostre que foi dado cumprimento à intimação ou, em caso de incumprimento, até que seja decretada a injunção precedentemente prevista.

7. A sanção pecuniária será de 30€/dia (com um acréscimo de 50%) se o locatário tiver idade igual ou superior a 65 anos ou grau comprovado de deficiência igual ou superior a 60%.

8. A intimação caduca, extinguindo-se a respectiva sanção pecuniária, se a injunção não for requerida em 30 dias a contar do termo do prazo anteriormente previsto ou se for, entretanto, indeferida.

9. O assédio é crime: Código Penal – artº 154-A.

 

Em conclusão

a.O assédio em matéria de arrendamento urbano perpetrado pelo locador ou por alguém a seu mando é um ilícito com consequências tanto nos planos contra-ordenacional, como criminal e civil.

b. Ao locatário é lícito dirigir ao locador intimação para que cesse as invectivas a esse propósitos desencadeadas.

c. Se o locador não acatar a intimação, ao locatário se confere a faculdade de requerer uma injunção perante o Serviços de Injunções em Matéria de Arrendamento, exigindo uma sanção pecuniária compulsoria à razão de 20€/dia até que se mostre que se deu cumprimento à intimação: se o locatário tiver idade igual ou superior a 65 anos (ou incapacidade igual ou superior a 60%) a sanção fixar-se-á em 30€/dia.

d. A intimação caduca se a injunção não for requerida em 30 dias contados do termo dos 30 dias iniciais e, desse modo, se extinguirá a sanção pecuniária compulsória.

e. O assédio, a perseguição, é crime, de harmonia com o Código Penal.

Tal é, salvo melhor juízo, o nosso parecer.

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